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Musicoterapia reduz sofrimento psíquico de pessoas com transtornos mentais

Projeto de extensão do IFPE Olinda continuará trabalho com novos participantes
por publicado: 29/06/2021 13h55 última modificação: 29/06/2021 14h19

Era mais uma visita ao Centro de Atenção Psicossocial Nise da Silveira - CAPS, no bairro de Rio Doce, onde Fabíola Martins, 43 anos, recebe tratamento para sua depressão. Naquela quarta-feira do mês de abril de 2021, ela foi convidada para participar de um grupo de musicoterapia, projeto de extensão do IFPE Olinda. Prontamente disse não. A resistência não era à toa. Fabíola não gostava de contato com outras pessoas, preferia estar só. Depois de algumas conversas, resolveu dar uma chance a mais um tipo de terapia, entre as tantas outras pelas quais já tinha passado durante seis anos. “Não tinha nenhum interesse, mas digo a você, foi uma das melhores coisas que já fiz”, garante.

Durante três meses, Fabíola, que não levantava pela manhã passou a acordar cedo para acompanhar as sessões. A vontade de estar no grupo a ajudou, inclusive, a reduzir os remédios. “A medicação que tomo é muito forte e pela manhã estava sempre dormindo. Por causa da musicoterapia, deixei de tomar a medicação da noite para poder acordar de manhã”, comemora. Ela ainda lembra da primeira música que cantou em grupo. “É preciso saber viver”, escrita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e regravada por Titãs, é cantarolada até hoje, enquanto realiza uma ou outra atividade. “Fiquei pensando que é preciso saber viver e eu não estava vivendo de forma correta. Essa música me fez refletir bastante. Passei a gostar de cantar e associar as músicas trabalhadas no grupo com a minha vida”, revela.

E foi assim que a música deu novos olhares para Fabíola, assim como aos demais usuários. Se antes não saia de casa, ela passou a cantar olhando nos olhos dos colegas e da equipe que a acompanha. “Fui tratada como gente e não como doida”, desabafa. Nas rodas formadas embaladas por música, o importante não é aprender técnicas de música ou tocar instrumento, mas desenvolver a percepção de si, a percepção do outro e do mundo, através de experiências musicais. Tudo realizado sob a supervisão do coordenador do projeto e professor do IFPE Olinda, José Davison da Silva Júnior, da bolsista do projeto, Letícia Melo, do colaborador externo e musicoterapeuta, Wellington Oliveira, além da equipe multidisciplinar que atua no CAPS.musicoterapia

Um desses integrantes que acompanhou o projeto de perto foi o farmacêutico Diego Ramalho do Nascimento, técnico de referência do CAPS. “A gente observou pelos relatos dos usuários que eles chegavam angustiados. Com a inserção da musicoterapia no auxílio do tratamento, essa realidade mudou. O sofrimento e a angústia diminuíram. Muitos, inclusive, passaram a incorporar práticas e vivências de músicas para além do CAPS”, relata.

A proposta do projeto é que a cada três meses sejam atendidos quinze usuários. “Finalizamos o primeiro grupo e foi possível perceber resultados positivos. Foram trabalhadas as funções psíquicas, como a atenção, orientação, sensopercepção, memória, afetividade, vontade, psicomotricidade, pensamento e linguagem através das experiências musicais de improvisação e recriação. Os usuários puderam se expressar através do fazer musical, compartilhar sentimentos e pensamentos. Tudo isso contribuiu para ajudar no melhor funcionamento fora do contexto terapêutico”, explica o coordenador do projeto, Davison.

E ajudou mesmo. Quem garante o esposo de A.T.S., Dival Pereira. O vigilante percebeu que a mulher ficou mais animada e menos angustiada. “Foi uma evolução para melhor. Ela tem problemas com suicídio. Já tentou tirar a vida várias vezes. Já cortou pulsos, garganta, seios. Ela tem uma bipolaridade alta e uma depressão profunda. Agora, ela fica com o celular ligado direto tocando as músicas, cantando e dançando. Até já voltou a se exercitar na academia”, celebra.

A.T.S. que também não saia de casa contava as horas para participar das sessões de musicoterapia. “A música acalmava. Saia de lá tranquila e alegre. Naqueles momentos, esquecia de tudo. A mente ficava vazia. Em vez de vozes me incentivando a fazer besteira, passei a ouvir música. Foi bom não só para mim, mas para todos. Foi uma tristeza quando terminou. Muita gente chorou”, lamenta.

musicoterapiaO fim do grupo, tão lamentado, é para dar oportunidade a outros usuários. “No tratamento de pessoas com transtorno mental é importante observar três aspectos, principalmente: o tratamento farmacológico, ou seja, os medicamentos; o tratamento não farmacológico, no caso, a Musicoterapia; e o suporte social, ou seja, o apoio da família. Por isso, pretendemos visitar os familiares dos usuários e organizar um Grupo de Musicoterapia com seus familiares, para que possamos incentivar o apoio dessas famílias”, esclarece o professor Davison.

O benefício não é só para os usuários. O coordenador do projeto se sente realizado por auxiliar as pessoas em sofrimento psíquico a minimizar um pouco sua situação, especialmente nesse período de pandemia que vivemos. “É muito gratificante o retorno positivo feitos pelos usuários, de melhora no humor, motivação para continuar, sentimento de acolhimento e pertencimento, contribuindo com um melhor funcionamento na vida cotidiana”, comemora. O próximo grupo a ser atendido terá início a partir de julho. O objetivo continua o mesmo. Levar a musicoterapia, uma intervenção não farmacológica de baixo custo, para promover o bem-estar e melhorar a qualidade de vida de pessoas com transtorno mental.