Você está aqui: Página Inicial > Imprensa > Banco de pautas > A educação que liberta

Notícias

A educação que liberta

Curso de Extensão contempla reeducandos de presídio em Pesqueira e aposta no conhecimento e na formação profissional para um futuro melhor
por publicado: 01/02/2017 16h35 última modificação: 01/02/2017 16h35

Nove horas da manhã. Presídio Desembargador Augusto Duque, em Pesqueira. Numa sala pequena, homens se acomodam em carteiras escolares dispostas em filas, aprontando-se para a aula do dia. Munidos de notebooks, curiosidade e motivação, eles prestam atenção às explicações dadas pelo professor. A cena acontece sempre às segundas e quintas-feiras, desde a segunda quinzena de março, marcando a rotina da primeira turma do curso de Extensão em Administração de Redes com Software Livre, oferecido pelo IFPE a um grupo de presos daquela unidade.

 Para João Almeida, professor do Campus Belo Jardim e idealizador da iniciativa, esta é uma aposta na Educação que aponta alternativas melhores para o futuro de quem está privado de liberdade. O curso, que vai formar técnicos em administração básica dos serviços de redes de computadores usando software livre, surgiu de um antigo desejo do professor em ajudar pessoas encarceradas a ganharem uma competência profissional que fosse além do trabalho manual. “A ideia surgiu da raiz mais básica do software livre, que é a liberdade do conhecimento. Daí o curso ser pensado como uma esperança de liberdade pelo software livre”, destaca.

A proposta não é pouca coisa não. Isso porque, além de conteúdos específicos relacionados à tecnologia, o curso também conta com a oferta de disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Empreendedorismo, Ética e Cidadania. A abordagem destes conteúdos estimula, além do conhecimento, a autoestima. Um potencial divisor de águas na vida dos reeducandos, segundo explica João: “O propósito maior é que estes homens possam aliar os conhecimentos adquiridos com uma nova vida. Qualificados, eles terão mais oportunidades no mercado e poderão atuar como empreendedores”, afirma o docente.

A vontade de ter um negócio próprio e explorar as possibilidades que o curso dá vem se mostrando como um sonho cada vez maior por quem está empolgado com o novo mundo de conhecimentos. É o caso de Aldair José, 25 anos, e Amilton José, 22. Para ambos, é o primeiro contato com software livre. Atraídos pela “novidade” do tema, entraram de cabeça na proposta e se mostram cada vez mais inclinados a explorar profissionalmente o que aprendem na sala de aula. “Tecnologia chama atenção e o curso é uma boa oportunidade de qualificação, um diferencial na formação”, afirma Aldair. “Tenho vontade de ter um negócio meu, de transmitir os conhecimentos que estou adquirindo aqui”, revela Amilton.

ESPERANÇA – Sobre o impacto do curso para o futuro dos alunos que estão privados de liberdade, a psicóloga do Presídio Desembargador Augusto Duque, Sílvia Letícia, é categórica. “Acredito na ressocialização através da Educação e do trabalho. E é inegável a importância que iniciativas como esta representam para eles”, diz.

Silvia considera que a busca por atividades educacionais, religiosas e profissionais são uma constante no esforço de tornar o cotidiano dos reclusos o mais produtivo possível. “Quando envolvido com este tipo de atividade, há um enorme ganho para os presos. Eles convivem melhor, adoecem menos, ganham um perfil totalmente novo e criam uma perspectiva de futuro”, explica. A enfermeira Laila de Omena, profissional que também atua no presídio, concorda: “A saúde é extremamente beneficiada, pois eles se sentem úteis e passam a ter no cotidiano uma ocupação que lhes acrescenta coisas positivas”, avalia.

Segundo o professor João Almeida, os diálogos que resultaram na implementação do curso foram iniciados diretamente com a direção da unidade e a proposta foi, desde o início, muito bem recebida. “Iniciativas assim contam com o apoio irrestrito do diretor Renato Ramos Magalhães, do supervisor de segurança Cícero Paulo, e do supervisor educacional, George Sidnei, agentes de segurança penitenciária que também acreditam na ressocialização”, detalha Silvia.

PARCERIA – Os dez notebooks utilizados no curso foram cedidos pelo IFPE através da Pró-Reitoria de Extensão (Proext), que apoia a iniciativa. Para Maria José Melo, então pró-reitora de Extensão que atuava na época de implantação do curso, a definição da iniciativa pode ser traduzida, para os contemplados, na conquista da verdadeira liberdade. Ela avalia o curso como o exercício do papel do Instituto, ao oportunizar a possibilidade de uma vida melhor através da reconstrução da vida profissional a partir da qualificação. “Torcemos para que outros profissionais se motivem a participar, que empresários se sensibilizem com a ação e tornem-se parceiros no projeto. Esperamos que o curso realmente faça a diferença na vida destas pessoas”, declarou.

Primeira iniciativa extensionista do IFPE que chega à população carcerária, o curso de Extensão em Administração de Redes com Software Livre foi uma proposta através da qual se materializou o desejo há muito manifestado pela ex-reitora da instituição, Cláudia Sansil, de desenvolver uma ação voltada para este público.