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Feminismo e Agroecologia

Em Barreiros, projeto de extensão incentiva a autonomia e o empoderamento de agricultoras, transformando sua relação com a terra
por publicado: 01/02/2017 17h03 última modificação: 01/02/2017 17h03

Na Zona da Mata Sul de Pernambuco, um grupo de mulheres agricultoras tem subvertido a lógica e a paisagem da monocultura da cana-de-açúcar. Através da Agroecologia, elas estão, pouco a pouco, plantando miniflorestas em meio a canaviais e transformando a realidade do Assentamento Ximenes, situado na área dos antigos engenhos Bombarda e Roncador em Barreiros.

 “Aqui, o hábito das pessoas é jogar veneno, tocar fogo, depois plantar e usar adubo químico. Eu e outras mulheres queremos um outro jeito de viver. Então, a gente começou a fazer diferente. Enquanto eles pagam para arar a terra e depois para plantar uma coisa só numa área enorme, eu estou fazendo os canteiros, que têm árvore, fruta, macaxeira, milho, feijão”, conta Bárbara Lima, uma das camponesas.

 Oriundas, em sua maioria, do assentamento Jurissaca e de outras localidades do Cabo de Santo Agostinho, a aproximadamente 76 quilômetros de distância, essas mulheres chegaram em Barreiros entre 2013 e 2014, após serem removidas de suas terras pelo Complexo Industrial Portuário de Suape. Como indenização, cada uma recebeu um lote em Ximenes, que foi criado pelo Instituto de Terras e Reforma Agrária de Pernambuco (Iterpe) em parceria com Suape com o intuito de assentar 126 famílias.

 “Lá, eu tinha um hectare e pouco, mas eu tinha tudo, não precisava esperar 20 anos para colher os frutos. Tinha jaca, manga, banana. E quando a gente veio pra cá, a gente pegou seis hectares, mas só com cana. E sem energia, sem água e sem moradia”, denuncia Bárbara.

 Preocupada, então, em garantir uma melhor qualidade de vida e construir uma nova fonte de renda, ela e outras agricultoras pediram apoio ao IFPE-Campus Barreiros e, juntas com a professora de agroecologia Vivian Motta, elaboraram um projeto de extensão intitulado Agroecologia e Feminismo: emponderamento das mulheres camponesas da Mata Sul, contemplado no edital Pibex 2015. Baseado na construção de conhecimento conjunto através de rodas de diálogo, cursos e capacitações, aliados a atividades produtivas nos lotes das agricultoras desde março de 2016, o processo já gerou mudanças concretas, como a formação do grupo de mulheres.

 “Nós escolhemos juntas. Cada qual sugeriu um nome. Todas as mulheres votaram e escolhemos Flores de Ximenes”, conta Elizângela Marinho orgulhosa. “Tinha vários nomes, mas não foi margaridas, nem rosas de Ximenes, porque a gente é diferente, tem várias flores. Eu sou uma flor de um jeito, mas tem outras flores mais delicadas, outras mais brutas. Somos mulheres, mas com diversidade. E o sentido das Flores de Ximenes é de florescer mesmo, de nascer, de ficar bonito, inclusive nas nossas parcelas”, completa Bárbara sorridente.

 Para a coordenadora do projeto, o surgimento do grupo é um instrumento poderoso de articulação das camponesas dentro e fora do assentamento. “Hoje, o Flores de Ximenes já existe como uma organização reconhecida não só pela associação dos moradores, mas pelo Fórum de Mulheres de Pernambuco, pelo Movimento de Pequenos Agricultores e pelo Movimento Sem Terra. Então, elas estão inseridas numa discussão maior, no espaço público”, pontua. Vivian ainda destaca que, desde a formação do grupo, as atividades têm sido realizadas de forma solidária e cooperativa, principalmente durante a organização do processo produtivo.

 “A gente busca, na agroecologia, essa perspectiva de desenvolvimento econômico e sustentável do assentamento. Então, nós estamos implantando vários tipos de Sistemas Agroflorestais (SAFs) nos lotes das agricultoras, que vão desde a produção de sementes até a de madeiras. Elas participam de todo processo de gestão, de pensar, de fazer, porque a nossa perspectiva lá não é ficar fazendo assistência técnica. É fazer com que elas tenham contato com a informação, aprendam a fazer e passem a gerir a atividade”, ressalta Vivian.

 É nesse sentido que, toda quinta-feira, as agricultoras fazem um mutirão no lote de uma das integrantes do grupo a partir de um planejamento prévio. Em cinco meses, já foram implantados seis SAFs, com o plantio de cerca de 1.200 mudas de espécies frutíferas (bananeira, açaí, cupuaçu, sapoti, nim indiano, coco, cacau) e florestais, como o guanandi, além de feijão, hortaliças e mandioca. “Enquanto a gente espera a árvore crescer, está aproveitando em volta e cultivando outras coisas, de tempo mais curto, que dão um retorno melhor financeiramente”, explica Elizângela.

 A ideia é que uma parte desses produtos seja voltada para alimentação e outra para comercialização, visando uma geração de renda coletiva entre as mulheres e uma melhoria na qualidade de vida da comunidade como um todo. “O maior fruto dessa experiência é ver as mulheres trabalhando de forma autônoma, organizada e empoderadas. Hoje, as camponesas não são mais beneficiárias do projeto e sim parceiras atuantes na realização de ações que visem melhorar as suas vidas e as de suas famílias”, avalia Vivian.